sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Opinião em Foco: Sul-Americana - da comoção à vergonha

Selvageria no Maracanã marcou a final da Sul-Americana deste ano
(foto: Jornal O Globo)

Um dos assuntos mais comentados nos noticiários esportivos nesta quinta (14) foi a final da Copa Sul-Americana no Maracanã, disputada entre Flamengo e Independiente (ARG) - a partida terminou empatada em 1 a 1, e como o primeiro jogo, na Argentina, havia sido vencido pelo Independiente por 2 a 1, a equipe de Avellaneda ficou com o título.
Mas, infelizmente, não foi pelo que aconteceu dentro de campo que esta final foi tão comentada; e sim, pelo que aconteceu fora das quatro linhas: antes e depois da partida, houve uma série de confusões e de cenas de selvageria no entorno do Maracanã - brigas, confrontos com a polícia, invasões, roubos, saques... enfim, cenas simplesmente deprimentes.


Ironicamente, há pouco mais de um ano atrás, o clima era outro. A tragédia com o avião da Chapecoense comoveu o Brasil e o mundo, e motivou atitudes nunca antes vistas na história do futebol: no Atanásio Girardot, em Medellín, onde a Chape jogaria a primeira partida daquela final diante do Atlético Nacional (COL), milhares de pessoas se reuniram e homenagearam as vítimas em um ato belíssimo. O próprio Atlético Nacional abdicou do título da Sul-Americana, em virtude da tragédia. E outras homenagens aconteceram com o tempo - a Chapecoense foi convidada, por exemplo, a participar do troféu Joan Gamper, disputando contra ninguém menos que o Barcelona, um dos maiores clubes do mundo; e por aí vai.

A equipe da Chapecoense na Sul-Americana de 2016: um ano atrás,
o clima era outro (foto: Nelson Almeida/AFP)

Parecia que alguma coisa ia mudar pra melhor. Só que não. Um ano depois da tragédia da Chape, enfim, a final da Sul-Americana foi realizada - e a julgar pelo que aconteceu, era melhor nem ter sido.
O que alguns "torcedores" do Flamengo fizeram (não dá pra generalizar; a atitude de uns poucos imbecis não representa em nada a maioria dos torcedores de verdade) antes e depois do jogo do Maracanã foi de uma imbecilidade imensurável.
A começar pelo episódio ocorrido às vésperas da decisão, quando flamenguistas promoveram um fuzuê na frente do hotel onde a delegação do Independiente estava hospedada; 49 pessoas foram autuadas e, pouco depois, liberadas (!!!). A partir daí, já dava pra imaginar que boa coisa não viria.
E de fato, o pior viria depois: momentos antes da partida, o entorno do Maracanã já estava uma verdadeira praça de guerra: facções rivais de organizadas do Flamengo (sim, as organizadas de um mesmo time brigam entre elas!) já haviam começado uma briga, um outro grupo bateu de frente com a polícia, um outro grupo enorme derrubou um dos portões do Maraca e entrou sem ingresso... enfim... o caos estava instalado.
Logo depois do fim da partida, mais confusão: flamenguistas confrontaram-se mais uma vez com a polícia, que revidou com bombas de efeito moral. Em meio a essa guerra, famílias com mulheres e crianças, acuados, apavorados, sem saber para onde ir e para onde correr.
Um motorista foi cercado por um grupo, agredido covardemente, e ainda teve o carro depredado e um celular roubado. E mais barbaridades aconteceram no entorno do Maracanã.

Motorista é agredido nas proximidades no Maracanã
(foto: Reprodução/TV Globo)

E em meio a tudo isso, ficam as questões: qual a necessidade de tudo isso? De quem é a responsabilidade por todas essas coisas? Quem é que segura essa bronca? Quem é que paga esse prejuízo?
Segundo informações veiculadas na imprensa, alguns desses atos já estavam sendo premeditados há algum tempo através das redes sociais - será que não dava pra evitar ao menos metade disso?
É fato de que o Estado do Rio de Janeiro está no fundo do poço: três ex-governadores presos, as contas públicas devastadas, a própria segurança pública tem se apresentado caótica... mas será que nem ao menos numa partida de futebol se tem algum respiro? Não há inteligência? Não há planejamento? Não há um monitoramento de certas ações suspeitas?
E que tipo de providências a Conmebol, organizadora da Sul-Americana, vai tomar? O Independiente já entrou com uma representação junto à entidade contra o Flamengo, pelo incidente do hotel.
Enfim... só o tempo vai dizer.

Relato de um torcedor no Twitter do
jornalista Eric Faria, da TV Globo
(foto: Reprodução/Twitter)
O fato é que esses incidentes do Maracanã escancaram realidades do nosso país. Uma boa parcela da nossa população ainda é motivo de vergonha - não têm qualquer educação, não possuem qualquer empatia, não têm uma mínima noção de realidade, acham que têm direito a tudo mais do que os outros, e usam das justificativas mais banais - como uma partida de futebol, como é o caso aqui - para extravasar a sua animosidade e a sua selvageria.
São acéfalos que possuem uma periculosidade incalculável, e que ameaçam a população de bem. Cadeia é pouco para esses baderneiros travestidos de torcedores.
O mais triste em toda essa história é ver os relatos de quem não tinha nada com a confusão, e foi ao estádio pura e simplesmente para assistir o jogo, que transbordam pelas redes sociais desde quarta-feira - muitos deles repensando a ideia de ir ao Maracanã ver o seu time de coração.


É a velha história de que, por causa de alguns, a maioria se prejudica. Os torcedores - digo, os VERDADEIROS torcedores - ficam assustados. O Flamengo, um dos maiores clubes do nosso futebol, conhecido por ter a maior torcida do Brasil e por ter tido craques como Zico, Júnior e outros, fica com uma mancha na sua história. O Rio de Janeiro, conhecido mundialmente como a "cidade maravilhosa" e destino preferido de muitos turistas ao redor do planeta, fica exposto negativamente mais do que já está.
Todos saem perdendo... e os baderneiros?! Estes ficam tirando onda, impunes, apenas esperando a oportunidade da próxima zona. E enquanto não houver uma mudança radical nas nossas leis, vai ser assim.

Alheios às confusões, jogadores do Independiente comemoram
o título da Sul-Americana (foto: Getty Images)

Em um ano, fomos de um extremo a outro. Fomos da comoção à vergonha. Da solidariedade mediante à tragédia da Chape à selvageria no Maracanã.
A final da Copa Sul-Americana do dia 13 de dezembro de 2017 foi como um balde de água fria para aqueles que apreciam o futebol. Um dia para ser esquecido.


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